Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Entropia



Luiz Fernando Marinho Nunes
Rio 01/11/2009
“Quanto ao destino, que alguns consideram o senhor de tudo, o sábio ri-se dele. De fato, mais vale ainda aceitar o mito sobre os deuses do que se sujeitar ao destino dos físicos. Pois o mito nos deixa a esperança de nos conciliarmos com os deuses através das honras que nós lhes rendemos, ao passo que o destino tem um caráter de necessidade inexorável“ – Epicuro
A Termodinâmica pode ser considerada uma filha da revolução industrial, já que seu objeto inicial como ciência foi compreender o conjunto das transformações da energia que naquele momento da história o homem aprendeu a mobilizar em quantidade e densidades jamais imaginadas anteriormente à criação da caldeira a vapor.
Ao longo de sua evolução a termodinâmica, que ampliou seu alcance para além das caldeiras e do Ciclo de Carnot, criou uma série de grandezas que visam explicar ou tornar quantificáveis certos fenômenos e comportamentos. Apropriando-se das definições de Energia, Trabalho e Calor originárias da Física, inventou a Entalpia, a Energia Interna, a Energia Livre de Gibbs, os coeficientes de atividade e também nossa querida Entropia.
A termodinâmica é uma ciência que tem uma particularidade interessante; nela jamais a variável tempo é considerada! Apesar disto, como veremos no final, pode auxiliar nas respostas às questões mais profundas sobre a natureza deste mesmo tempo.
Além disso ela tem um charme especial, só alcançado por não ciências como a poesia ou as primas matemática e filosofia. As variáveis termodinâmicas são produto de uma criação humana. Elas são construídas de forma a permitir que sejam quantificadas a partir de medidas tomadas de parâmetros observáveis na natureza, mas elas não existem no plano concreto, material: são produtos da mente tanto quanto o verso “minha terra tem palmeiras”.
A estrutura da termodinâmica se constitui em torno de duas leis que vão determinar os limites em que certas transformações podem ocorrer. Há uma terceira Lei, de Planck, que leva a outro conjunto de considerações que não pretendo examinar.
A primeira lei nos informa que a energia deve ser conservada em todos os processos usuais, ordinários, que não envolvam as transformações de massa em energia (e=mc2). Uma grandeza termodinâmica importante surge como necessidade de “operar” a primeira Lei, a Entalpia, usualmente expressa pela letra H. A entalpia não suscita apreensões, não nos remete a outros campos do conhecimento, não nos obriga a refletir sobre as cosmologias. É acessível mesmo aos cérebros não treinados, pois explica algo intuitivo, o princípio da conservação da energia. Daí nenhum filósofo tentar se apropriar dela para tentar explicar outra coisa, imitando as parábolas de Cristo. É verdade que Cristo foi certamente o Senhor das Parábolas, mesmo para aqueles que não acham que tenha qualquer parentesco divino. Já a maior parte dos filósofos, ao se apropriar de conceitos da termodinâmica, o fazem canhestramente, sem que a história contada e o objeto da explicação tenham uma simetria forte[1].
A Primeira Lei, entretanto, não impõe nenhuma restrição sobre o sentido das transformações.
Uma segunda lei vai tentar resolver este problema, e para isso foi criada outra variável, a Entropia (S).
A expressão matemática da segunda lei é:
∆Stotal ≥ 0
[1] Numa curiosa manifestação da Lei das Séries, justo hoje, 1/11/2009, ao escrever este parágrafo me deparei com um caso de lamentávelaplicação do conceito de entropia à sociologia, no texto do Ferreira Gullar publicado no O Globo e que colocarei em anexo como exemplo.
É surpreendente que uma expressão matemática tão simples esconda em si um conjunto de implicações com tão grande complexidade!
Antes de explorar estas nuances, vamos registrar o texto que define a Segunda Lei da termodinâmica e que ganhou a expressão matemática já mostrada: “todos os processos acontecem na direção em que a mudança de entropia total é positiva, aproximando-se de zero no limite quando o processo se torna reversível.”
Para completar o raciocínio é necessário definir ∆S, ou seja, a Variação da Entropia.
Tchan, tchan, tchan, tchan..., a partir deste momento todos saberão o que é Entropia!
Pois o ∆S é igual quantidade de calor trocada num processo reversível, dividido pela temperatura em que o processo acontece.
Ou seja, ∆S = ∫dQ rev/T. O dQ que apareceu aí é uma pequeníssima quantidade de calor trocada a cada passo. Já a Integral (∫) só indica que devemos ir somando o resultado da divisão destas pequenas quantidades pela temperatura, ao longo a transformação. Pronto. É só isso.
Um aspecto importante para o entendimento da Entropia, assim como da mais simplória Entalpia é que ambas são definidas como Funções de Estado. Explicando parabolicamente – meu Jesus Menino, que ousadia! - Função de Estado é como a beleza das mulheres. Não interessa como foi produzida, seja natural e selvagem, esculpida por um bisturi, criada pelo uso de cosméticos, modelada nas academias ou construída com ajuda de banhos de leite de cabra como fazia Cleópatra. A beleza está ali para nosso deleite e, se o observador tiver sorte, desfrute. As Funções de Estado são assim. Só dependem da situação específica do sistema num dado momento, como sua pressão, o volume e a temperatura. Não interessa o que aconteceu antes, como o sistema chegou àquela condição. São variáveis ahistóricas, não há como a partir delas buscar pegadas e deslindar o passado.
Mesmo sabendo que espremendo bem o que já foi dito obtenha-se quase nada, numa operação que o leitor não fará por condescendência ao autor, a Entropia já deve estar se tornando mais íntima. É como uma visita antes misteriosa que agora anda pela casa de peignoir e pode ser espreitada em portas entreabertas e pelos buracos de fechadura; o sucesso seria se alguns já estivessem pensando em chamá-la de Entrô.
Como afirmei no primeiro parágrafo, a termodinâmica foi criada para explicar fenômenos de um mundo que se industrializava. Daí a quantidade de coisas que podem ser facilmente entendidas no nosso cotidiano por aqueles tiveram um treinamento básico no assunto.
Com um pouquinho de termodinâmica entende-se porque um carro a gasolina ou a diesel é tão ineficiente, porque os carros elétricos podem almejar outro nível de aproveitamento da energia, o que seria elegantíssimo se na maior parte das vezes a energia elétrica não tivesse sido gerada em usinas térmicas através de processos quase tão ineficientes como o do próprio motor do automóvel. Também se pode entender porque a gela quando se abre a tampa provocando uma expansão adiabática, ou como funciona o ar condicionado. Andar num mundo decifrável nas suas pequenas coisas é um presentinho que a termodinâmica concede aos que passaram pela dificuldade de estudá-la.
Desde o início a termodinâmica, e a entropia em particular, cutucou aspectos do imaginário humano que de certa forma estão na base do que se constituiu como a fronteira da filosofia e da ciência, tão misturadas no início e que, a meu ver, começam a convergir novamente. Falo, por exemplo, das tentativas de se produzir o “moto–contínuo”, que foram transferidas dos laboratórios para as clínicas psiquiátricas depois que a termodinâmica desconstruiu qualquer expectativa de sucesso.
Abrindo um parêntese, já que falei de distúrbios psíquicos que se manifestam em buscas insensatas, identifico uma similitude entre os primeiros termodinâmicos e Freud, que ao procurar criar uma ciência da mente, construiu entidades como o Inconsciente, o Ego, o Superego e o Id. A diferença entre Freud e Carnot é que a Entalpia pode ser quantificada e serve para projetar uma caldeira, mas a tentativa de operar a mente a partir dos conceitos da psicanálise, com seu Inconsciente que anos de sofazinho não tangenciam decifrar, ainda não levou a nada.
Voltando à termodinâmica e à Entrô, ela permite especular sobre coisas menos terrenas. Por exemplo, os que acreditam no Inferno e estudaram termodinâmica sabem que ele é isotérmico. A alta temperatura do inferno tem que ser igual em todos os pontos desse espaço de ex-pecadores, pois se assim não fosse o espectro um engenheiro – não são só advogados e presidentes do BC que populam o inferno - acabaria aproveitando o diferencial de temperatura para construir uma máquina térmica que funcionaria como ar-condicionado. Parafraseando Galileu – dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio que moverei o mundo - o termodinâmico promete: dêem-me um diferencial de temperatura que eu construo uma máquina térmica.
A entropia, que até o momento foi abordada nos termos de sua relação com o calor também pode ser analisada sob a ótica da probabilidade. A entropia pode ser relacionada com o grau de aleatoriedade de uma distribuição molecular. Imaginem a água em estado sólido. Suas moléculas têm um grau de organização maior que a mesma água ao se transformar em vapor. A Entropia do vapor é maior que a do gelo.
Por extensão, a entropia explica que uma pedra que estava instavelmente equilibrada numa ravina e rola para o vale, atingindo um estado de menor energia e de maior probabilidade, não volta a subir. Tanto sabemos disto, e assim usamos intuitivamente a termodinâmica, que só perdemos tempo admirando com curiosidade algumas pedras quase que impossivelmente encarapitadas sobre outras e jamais as que estão no chão. Também a observação tão comum na política de que se o jabuti está na árvore é que alguém o colocou lá é termodinâmica pra caramba.
Outras reflexões mais complexas são induzidas pela análise termodinâmica. Por exemplo, a evolução do universo, que sendo um sistema fechado (no limite o único) estaria condicionada pela diminuição da quantidade de energia disponível para realização de trabalho?
Daí derivam os cenários imaginados pelos físicos, como a possibilidade de um universo oscilante, que pode colapsar e se recriar a partir de novos “big-bangs”, mexendo profundamente com o que Shakespeare chamou da vã filosofia dos que preferem não ver que há mais coisas entre o céu e a terra do que se pode explicar.
Num exemplo de mau uso da Entropia há a justificativa tosca dos toscos criacionistas que pretendem que o processo evolutivo dos seres vivos seria impossível já que o Universo caminharia obrigatoriamente da ordem à desordem, do mais complexo ao mais simples. Esquecem que a Terra não é um sistema fechado e que basta a luz do sol, um fluxo de energia externo, para permitir que se produzam organismos mais organizados, com uma diminuição local da entropia.
A partir deste ponto as coisas vão se complicando, tanto em sua formulação como em suas consequencias.
Há os estudos sobre os sistemas auto-organizadores, típicos da biologia, e tão superiores à nossa tecnologia habitual, herdeira direta de uma lógica cartesiana, operando em regiões longe do equilíbrio, muito organizadas mas também flexíveis, que nos remeteriam a outro conjunto de questionamentos para os quais a irreversibilidade – fortemente associada ao conceito de entropia - está na raiz.
Vou escolher de forma arbitrária um problema específico para encerrar este texto, que inicialmente foi “vendido” com uma promessa de entendimento e clareza, mas que agora se anuncia como gerador de mais perplexidade. Deixo de lado outros temas de interesse como a discussão do significado da informação sobre a entropia dos sistemas.
Trata-se da questão da flecha do tempo. Uma das curiosidades da física, tanto a Newtoniana como a Quântica, é que nelas o tempo é reversível. Nada na física obriga o tempo caminhar do passado para o futuro! Daí os construtores das máquinas do tempo não serem usualmente internados nos hospitais psiquiátricos, como os que perseguem o moto-contínuo – os alquimistas que buscavam a pedra filosofal estão definitivamente incorporados ao mainstream depois do domínio das reações nucleares– mas ao contrário, passaram a ser sistematicamente convidados a participar de eventos científicos.
Para nos ajudar a escapar do mundo de Einstein, dominado pelo tempo reversível e pelo determinismo, que se apoiou em Espinosa, transformando o homem num autômato[2] em nome da unidade da natureza, sobraram as indagações dos filósofos, com destaque para Bergson e muito bem expressa por Popper ao escrever: “considero o determinismo laplaciano – confirmado como parece estar, pelo determinismo das teorias físicas e pelo brilhante sucesso delas – o obstáculo mais sólido e mais sério no caminho de uma explicação e de uma apologia da liberdade, da criatividade e da responsabilidade humanas”.
Pois no centro de um novo mundo onde a flecha do tempo não admite simetria se insere com certeza o conceito de Entropia que nos auxiliará a percorrer o caminho estreito mas promissor entre a prisão do mundo determinístico e o mundo arbitrário e ininteligível do acaso.
[1] A afirmação é de Ilya Prigonine, prêmio Nobel de Química
Anexo
Exemplo de mau uso da Entropia a serviço de outros interesses
Trecho comentado do Artigo “Em Direção à desordem”
(Ferreira Gullar – O Globo 1/11/09)
A sociedade carioca entrou em entropia desde que o tráfico instalou-se nas favelas.
Conforme a segunda lei da termodinâmica, os sistemas físicos tendem à desordem (errado, como já vimos – a menos que seja um sistema fechado). A perturbação da ordem em um sistema chama-se entropia (pode dar o nome que quiser mas a perturbação não é entropia, que no máximo seria uma medida probabilística da ordem/desordem). Como, por exemplo, os ruídos numa transmissão radiofônica (meu deus, que exemplo!). Isto vale para outros sistemas como a sociedade humana (isto o que, o ruído ou a tendência a desordem?), cuja ordem é mantida pelas leis que regem o comportamento de seus integrantes(o problema é que as leis não regem de fato os comportamentos, não é?). A sociedade carioca entrou em entropia (entrar em entropia – na qual não se entra, pois como vimos, sendo uma função de estado, a cada instante tem-se uma - deve ser para ele algo como entrar em coma) desde que nos anos 70, o tráfico começou a instalar-se nas favelas. Essa tendência a desordem pode ser revertida se o governo e a sociedade (que obviamente inclui os traficantes, que não se disporão a reverter nada), se dispuserem a isso. (não se separa com vírgula o sujeito do predicado, como acabou de me lembrar o Windows Office)
[1] Numa curiosa manifestação da Lei das Séries, justo hoje, 1/11/2009, ao escrever este parágrafo me deparei com um caso de lamentável aplicação do conceito de entropia à sociologia, no texto do Ferreira Gullar publicado no O Globo e que colocarei em anexo como exemplo.
[2] A afirmação é de Ilya Prigonine, prêmio Nobel de Química

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Arte Moderna!Ver para crer,não acreditando no que está vendo

Artoons -Pablo Helguera
www.pablohelguera.net


Acabo de ler a tradução brasileira (Lya Wiler) do ex-polêmico livro de Tom Wolfe A Palavra Pintada (The Painted Word) lançado recentemente. Em 1975, quando li a primeira edição, morava em Paris. Lembro que na ocasião, aos 28 anos, a leitura desse livro me revoltou. Pudera! Meus anseios se fundiam aos movimentos estéticos e sociais que mobilizavam minha geração. O livro de Tom Wolfe, um sucesso de mídia e vendas, caiu como uma bomba nos salões "cult",revestindo com mordacidade os argumentos mais intransigentes. O “inimigo” recebeu munição nova, esse era o entendimento de parte das pessoas do meu convívio. Posições polarizadas tornavam as discusões um campo de batalha. Agora, mais de um quarto de século depois,a escrita mordaz de Wolfe, contida nesse pequeno livro, não ressoam com o mesmo vigor. A epifania de Wolfe, habilidoso esgrimista de palavras, nos entrega um texto delicioso, sem duvida, porém, passado esse tempo suas criticas se tornaram opacas e as questões que nela jazem tornaram-se impotentes, incapazes de acalorar discussões. Além disso, os supostos danos à arte modernista da década de 1950 e 60 em particular e a pintura abstrata em geral, se é que houve algum, não se tornaram proeminentes com o passar dos anos. Ao contrario, murcharam.Alguns clones nativos se esforçam ainda hoje para obter êxito na campanha contra o modernismo iniciada pelo papa do new journalism, contudo, por não possuírem a mestria do original, embaçam o espelho ao tentarem refletir suas imagens no vulto de Wolfe. Portanto, falar deles é irrelevante.

Algumas recordações despertadas pela publicação brasileira e que não se encontram no livro tocam em polêmicas ativas na época. Sei que muitas pessoas não gostaram do livro e outros não gostarão. Espero que isso não os impeça de conhecer esse confronto entre personalidades da critica, editores e jornalistas que teve uma considerável repercussão no ambiente artístico. Segundo o autor o fato que o mobilizou a escrever o livro foi uma critica de Hilton Kramer para exposição Sete Realistas: Pearlstein, Bailey, Mangold, Wiesenfeld, Peixe, Posen, Hanson, na Yale Art Gallery (Universidade de Yale). Esse contexto não obrigou Kramer a “adorar” o livro. Ele revelou que não tinha gostado quando foi publicado pela primeira vez, e provavelmente ainda não gosta. Afinal, ser referencia de um fato,obra ou texto não obriga o citado concordar com as idéias de quem o mencionou. Não é verdade? O certo é que a idéia para o livro surgiu de alguma coisa que ele tinha escrito um ano antes.Nas páginas de abertura do seu livro A Palavra Pintada Wolfe diz que foi "empurrado" para fora de seu devaneio habitual ao ler a critica de Kramer para a exposição da Yale Art Gallery no encarte dominical do New York Times e o reproduz: “O realismo não carece de adeptos, mas carece, visivelmente, de uma teoria convincente. E dada a natureza de nosso intercambio intelectual com as obras de arte, carecer de uma teoria convincente é carecer de algo crucial – o meio pelo qual nossa experiência de obras individuais se soma à nossa compreensão dos valores que elas simbolizam” Sacudido por essa citação (aliás, primorosa) Wolfe se deparou com o fenômeno Aha! Vislumbrou o lado “oculto” da arte contemporânea e mergulhou num mar “translúcido” de conjeturas. “Agora, finalmente, em 28 de abril de 1974, eu podia ver. Eu tinha ficado para trás o tempo todo. Não é "ver para crer", que bobinho, mas "crer é ver". A Arte Moderna se tornou inteiramente literária: as pinturas e outras obras só existem para ilustrar o texto. ”

Os ataques de Wolfe ao pós-modernismo não chateavam Kramer. Segundo alguns comentaristas, Kramer sentia uma considerável simpatia pelos arroubos do jornalista contra grupos pós – modernos. O fato que desagradou Hilton Kramer foi a critica de Wolfe à Clyfford Still, um artista que Kramer considera "um dos mais originais" pintores do expressionismo abstrato. Porém, o que mais irritou o decano da critica do NYT foi o escárnio de Wolfe com todo movimento abstrato, incluindo os críticos e teóricos que o apoiavam. Para Kramer foi o disparate que faltava visto que ele muito contribuiu para difusão desse movimento da arte americana. As tentativas de ridicularizar Clement Greenberg e Harold Rosenberg, defensores influentes início do expressionismo abstrato, se estendem no livro a todos os movimentos importantes do século XX- do Cubismo a Pop Art. Primeiramente publicado na revista Harper's em Abril de 1975 com o titulo "A Palavra Pintada: A Arte Moderna chega ao Ponto de Fuga”. O artigo atingiu em cheio o nervo de varias prima-donas da critica. Kramer respondeu imediatamente com uma longa análise, intitulada "Tom Wolfe e A Vingança dos filisteus." Dez anos depois, esse artigo foi reproduzido em um volume de opiniões e ensaios de Kramer que deram origem a publicação intitulada A Vingança dos filisteus: Arte e Cultura 1972-1984. Sua resposta a Wolfe inclui uma serie de provocações divertidas e outras nem tanto, como essas: “Se alguém tinha alguma dúvida que a vingança dos filisteus está sobre nós o ataque de Tom Wolfe a arte contemporânea, no número de abril da revista Harper's , acaba de extingui-la. Sobre arte, moderna ou não, Wolfe parece não saber nada”.“The Painted Word de Wolfe chega ao grande público que não sabe nada sobre a arte modernista, mas sabe muito sobre os rumores [fofocas] que são lançados em seu nome.Quando se trata da análise de idéias... quando ela se resume a obras de arte reais e inspiradas que nos levam a pensar, Wolfe, irremediavelmente, não é profundo.""A [incompreensão de Wolfe] sobre o papel da crítica da arte - [sua] hostilidade com a teoria - identificada em The Painted Word, apesar de sua sabedoria e diversão literária, é um enunciado filisteu, um ato de vingança contra uma qualidade da mente com a qual não se integra e, portanto, trata como piada."Wolfe não tem, certamente, o conhecimento de Kramer sobre a história do modernismo, assim como certamente não passou sequer uma fração do tempo de Kramer investigando a arte abstrata. Porém, Wolfe é rápido e sagaz. Ele percebeu num piscar de olhos o poder da revelação ao ler: "o realismo não tem uma teoria plausível”. Todavia, sua observação de que "a falta de uma teoria convincente é a falta algo crucial", no que tange a produção artistica é um equivoco. O açodamento induziu Wolfe a proferir outros mais.Ver para crer, não acreditando no está vendo, instando o espectador a um olhar inquisidor,portanto,não apenas contemplativo, foi um dos fatores que inspirou os artistas que produziram as obras mais surpreendentes do modernismo. Foi o desprezo por esse detalhe fundamental que enveredou Tom Wolfe por vias obscuras.

out/2009






















Quinta-feira, Setembro 24, 2009

Arte Contemporânea

Artoons -Pablo Helguera


Arte Contemporânea é maior parte das vezes entendida como um movimento artístico.No Brasil fala-se de arte contemporânea como se fala do Impressionismo ou Modernismo por exemplo. Se fosse um movimento artístico seria o mais durável dos movimentos estéticos da recente história da arte. O termo ganhou essa dimensão a partir dos anos 80 do século passado, quando uma casta de artistas, curadores, mercadores e admiradores se apropriaram do caráter difuso do termo para ali abrigarem seus paradigmas estéticos. A ampla visibilidade dessas produções nas grandes mostras públicas, nas Bienais, nas instituições de arte, no mercado e na mídia vivifica um paradoxo que aflige a cultura brasileira há muito tempo. Aqui, as iniciativas inovadoras tornam-se tímidas quando confrontam a mentalidade provinciana que se arrasta desde a era colonial, submetendo todos a uma ordem soberana que abate os opostos e banaliza os anseios por mudanças. Um conjunto de coisas, objetos, gestos, conceitos, instalações e outros programas estéticos que repartem procedimentos aparentemente não tradicionais e dividem códigos análogos apontam para um padrão estético dominante. As propostas que não se alinham a esse padrão enfrentam muitas dificuldades para emergirem à visibilidade publica.

Numa palestra realizada em 2005 na cidade do México Donald Kuspit definiu primorosamente a questão.Diz ele: “é muito difícil, mesmo impossível, escrever uma história da arte contemporânea -uma história que faça justiça a toda a arte considerada contemporânea: essa é a lição do pós-modernismo. Se escrever a história é algo como unir as partes de um enigma, como sugere o psicanalista Donald Spence, então, arte contemporânea é um enigma cujas partes não surgem juntas. Não há nenhuma narrativa cabível entre elas, para usar o termo de Spence, sugerindo, a principio, apenas incertezas. Porém, em suas partes individuais podem ser compreendidas. O contemporâneo por definição não é necessariamente o histórico, isto é, o contemporâneo é uma quantidade de eventos associados em um presente plausível, ou melhor, uma narrativa consistente que integra algum destes eventos em um sistema ou padrão que, simultaneamente, os qualifica, dando - lhes uma espécie de intencionalidade em relação ao seu propósito”.

Zelosos em suas estratégias pessoais, aplicados nas relações institucionais e com visão centrada no sucesso os segmentos da corrente de pensamento predominante na contemporaneidade acumulou conquistas. Nesse curto espaço de tempo vimos museus de arte tradicional e moderna abrir núcleos de arte contemporânea, operações mercantis se tornarem destaque na mídia que, exaltando os recordes de preços das obras de artistas da atualidade,descartaram as analises criticas sobre o valor intrínseco da arte. Proliferaram curadorias enaltecendo a “genialidade” do próprio curador. As assessorias de marketing galgaram status cultural. Vimos brotar “novas” idéias baixadas de updates temáticos que vagam pelo mundo. Expandiram as exposições e debates “polêmicos” tomados de forma imprópria de outros campos do saber.Esse conjunto de feitos revela o triunfo do entretenimento na vida contemporânea. Tamanha visibilidade ratifica a certeza de que vivemos sobre a égide de um modelo estético dominante.

O vale tudo que permeia a abundancia de modos e estilos confluindo num mesmo viés, consolidou uma permanência estética de longa duração. Nos últimos 30 anos fomos intimados a tolerar um modelo de expressão artística. O custo disso foi seu esgotamento.Cronos, o deus grego que representa o tempo, é o ícone mais adequado a esse período. Porém, sua maldição é austera com os homens. Primeiro os ilude, depois os abandona a própria sorte, diante da impossibilidade de subverter o tempo.

Adriano de Aquino

09/09

Domingo, Setembro 06, 2009

Fragmentação do $ e n a d o .000.000.000,00


A tentativa de cercear a campanha política de 2010 na internet tornou publica mais uma safadeza do Senado Federal. As manobras que já circulavam nos bastidores e recentemente apareceram na mídia, ensejavam impor limitações ao uso livre da internet na próxima campanha eleitoral. Para muitos senadores os descalabros que produzem, os quais somos intimados a assistir todos os dias, não são suficientes para nos esgotar. É preciso ir além, mais fundo na ignorância e no desprezo pela inteligência do cidadão. A recente tentativa de restringir o uso das novas tecnologias de comunicação revela o grau de atraso mental a que estão sujeitos. Essa tentativa de agora, não é a primeiro caso. Outras maquinações parlamentares, a titulo de legislação especifica que visam restringir a livre circulação da informação virtual, já foram aventadas. O pouco que sabem a respeito das transformações culturais impulsionadas pela internet já é o suficiente para alertá-los de que um novo inimigo, mais poderoso que os bandos políticos locais, constitui uma grande ameaça. A maneira de um censor boçal não pretendem estudar o novo fenômeno de comunicação global. Suas mentalidades tacanhas só produzem reações viscerais. Proibir, controlar, cecear são palavras que lhes trazem paz.,Experts em corrupção e auto favorecimento, atos secretos e nomeação de familiares, não conseguem, no âmbito das idéias, ir além do velho habito coercivo. Falam para o povo até onde o povo entende de política. E, basta!

Subvertem o dicionário alegando que o cambalacho que prolifera no ambiente parlamentar é Política real, com P maiúsculo.Coisa de Profissional - com P maiúsculo também.Incapazes de entender as mudanças de nosso tempo produzem asneiras sucessivas. Entendem como poucos de transações mesquinhas e retrogradas. Contudo, mesmo se beneficiando de informações privilegiadas temem as mudanças que se instalam no processo de construção de uma nova cultura. Sabemos que as transformações de mentalidade ocorrem no mesmo tempo das reações conservadoras. Tal percurso é sempre tortuoso, entulhado de personagens e praticas arcaicas que se debatem para prosseguir usufruindo. Os patriarcas senatoriais, parte dominante da ralé política, ainda que não vislumbre a extensão e a profundidade das mudanças em curso, já intuíram que tal movimentação tem na internet um foco contundente. Com os meios intelectuais de que dispõem alguns senadores só conseguem ver salvação para sua espécie se tiverem como controlar a rede virtual. Imagino as bobagens que pensam sobre as comunidades virtuais, as redes sociais e etc.

Com a tentativa recente uma coisa ficou clara: se pudessem controlar os novos meios de comunicação através de um ato secreto estariam mais tranqüilos. Mas, ao contrario do coronel do sertão que controla os currais eleitorais, não há como controlar a internet, restringir a opinião livre e democrática, a crescente participação política e o clamor por reformas.

Domingo, Agosto 09, 2009

INHOTIM: A Grande Lavanderia Mineira

Contemporaneidade Embalada para Consumo

A matéria investigativa sobre Inhotim, publicada no Novo Jornal (link acima) - deu margem a muitos comentários. Sobre cada um deles poderia desenvolver reflexões extensas que não seriam suportadas pelo fluxo desse tipo de pagina de um site da rede social. Porém, uma preocupação comum a todos os comentários sobre as velhas e nefastas praticas políticas merece uma consideração à parte, pois, reflexo da tradição política ainda envolvem e submetem a cultura brasileira ao atrazo. A manipulação “coronelista” se impõe sobre tudo e sobre todos, desencadeando a degradação de grande parte das instituições publicas e revelando o grau de comprometimento da cultura política nacional com as velhas praticas da corrupção. As iniciativas privadas que se beneficiam desse ambiente promiscuo são cúmplices da subserviencia cultural e da submissão política.
Sarcasmo? Não. Safadeza!
Os interesses pessoais, permeados de pragmatismo de marketing, hoje convergem com as novas tendencias estéticas atraves das bordas do anseio contemporâneo por novidade. No Brasil as coisas funcionam assim. Nesse país os opostos convivem harmonicamente. Aqui, o “coronelismo pós moderno” é mecenas da vanguarda contemporânea. Vanguarda contemporânea é aquela que se apóia na matriz da arte global e se ampara nas finanças institucionais para desenvolver um programa estético “genial”. Poucos ligam para o fato de que tais injunções acabam por elevar às alturas e garantir a permanência de um velho sistema que, por esperteza, se apoderando dos códigos estéticos correntes na contemporaneidade, vem neutralizando o poder de comunicação da arte, manipulando mercados e enchendo de peças ornamentais os parques temáticos de arte tipo Bienais e outros mega eventos pelo mundo afora, visando objetivos mais ambiciosos e lucrativos.
O desprezo pela critica e pelos critérios nos fez aportar num lugar onde as autoridades acadêmicas e os financistas regem seus empreendimentos ao mesmo tempo em que geram movimentos artísticos.
É a teoria do “salto de etapas” colocado em prática de forma magnífica.

Terça-feira, Julho 21, 2009

A UNE e o peleguismo Pós Moderno



No Aurélio pelego é: pele com lã do carneiro usada nos arreios à maneira de xairel; indivíduo subserviente, capacho.

No meio político o termo pelego foi popularizado nos anos 1930, durante o governo de Getúlio Vargas. Em 1931 Vargas decretou a Lei de Sindicalização, inspirada na Carta Del Lavoro do fascista italiano Benito Mussolini. Entre outras coisas essa lei submetia os sindicatos ao Ministério do Trabalho. É nessa época que a palavra pelego ganha outros significados servindo para definir o líder sindical de confiança do governo que garantia o atrelamento da entidade ao Estado. Décadas depois o termo voltou à tona com a ditadura militar. Pelego então passou a ser o dirigente sindical apoiado pelos militares, sendo o representante máximo do chamado sindicalismo marrom. A palavra, que antigamente designava a pele ou o pano que amaciava o contato entre o cavaleiro e a sela, virou sinônimo de traidor dos trabalhadores e aliado do governo e dos patrões. Logo, é fácil entender que chamar uma pessoa de pelego é dizer que ela é subserviente/servil/dominada por outra, ou seja, capacho, puxa-saco, bajulador.

A era do conhecimento, da intensa comunicação global e da valorização da sociedade civil trouxe enormes benefícios, contudo, não extinguiu os antigos hábitos políticos nos países mais atrasados onde a nefasta tradição política sobrevive camuflada dentro do sistema democrático.

Um bom exemplo da força dessa sinistra reminiscência pode ser percebida nas palavras e atitudes de Augusto Chagas, presidente da União Nacional dos Estudantes que apresenta em 2009 para a sociedade brasileira a versão pós moderna do peleguismo.

As reações de Augusto Chagas as críticas de que a UNE teria se tornado um movimento chapa-branca (sinônimo de pelego), pelos recursos que recebe do governo Lula, me lembrou a atuação dos pelegos do passado. A parte sutis mudanças impostas pelo presente, o pensamento do atual líder estudantil é muito semelhante aos pelegos do passado tanto no tocante ao desprezo pela autonomia e a reflexão critica quanto pela a cretinice e a submissão. Mesmo diante de inúmeros problemas no sistema de ensino no país, Augusto Chagas coloca como prioridade da entidade a marcha de uma caravana nacional para debater as eleições de 2010 onde a UNE fará campanha para a pré-candidata do governo, a ministra Dilma Rousseff.

Plagiando, de forma invertida, a pratica dos conservadores que viam o comunismo internacional como o grande vilão Chagas combate um demônio nacional, concentrador de todo mal do século XXI. Seu nome: FHC.-Nós vamos emitir opinião para 2010, sim. Não vejo problemas no fato de a UNE ter opinião. Vamos comparar os oito anos dos governos Fernando Henrique e Lula em vários debates. A UNE sempre foi extremamente crítica ao governo FHC, que foi ruim para o país. Mas não vê Lula da mesma forma - disse ele.

Em relação ao presidente do Senado José Sarney (PMDB-AP),a UNE acha os ataques da oposição equivocados.

- A mera saída do Sarney não resolve nada.

Augusto também não vê problemas no fato de a UNE receber verbas públicas para realizar seu 51º Congresso e retribuir os donativos realizando uma movimentação estudantil contra a CPI da Petrobras.

- Não acreditamos que o objetivo da CPI seja apurar irregularidades. A CPI quer abrir flanco para a exploração do pré-sal por setores privados.

Augusto afirma que a imprensa,a opinião publica e os valores éticos fundamentais que deveriam nortear as relações das instituições de representação com o poder constituído não são impedimentos que levem a UNE a considerar nocivo o recebimento de verbas públicas.

- Movimentos sociais não têm a função de fazer oposição a governos, mas sim para ir atrás de conquistas.

As declarações de Augusto revelam o quanto o pragmatismo pode distorcer os valores mais elevados das causas sociais.Augusto cursa o primeiro ano de Sistemas de Informação na Universidade de São Paulo (USP), depois de desistir de dois outros cursos universitários. Ele disse que mora num apartamento mantido pelo pai, especialista em computação, e passará a receber da UNE uma ajuda de custo para alimentação e transportes de R$ 1.500 mensais.Antes, foi presidente duas vezes seguidas da União Estadual dos Estudantes (UEE), recebendo R$ 1.200 de ajuda de custo. Foram dois mandatos: 2005-2007 e 2007-2009.Com esse aporte de recursos é compreensível que Augusto diga: 'Não me sinto mal por não ter curso nem emprego'-Ora! Augusto, mas isso não é um emprego?Não,responde ele,ao contrário: eu sinto muito orgulho por ter aberto mão da minha trajetória profissional por um tempo. Quando encontro amigos que estudaram comigo e já se formaram eu me sinto bem, seguindo o meu próprio caminho. Não me sinto mal com as críticas de que não concluí um curso ou não tenho emprego. A UNE é o que é pela dedicação política de alguns estudantes. Pessoas passam, o movimento fica. No movimento estudantil, eu aprendi a importância das idéias coletivas.Para consagrar, junto a comunidade estudantil, suas aspirações peleguistas Chagas enaltece o Bolsa Família, vedete do governo Lula, defendendo que seja estendida para os estudantes com a criação da Bolsa UniversitárioAugusto Chagas já tem pronto o modelo da Bolsa que quer ter. Segundo ele a Bolsa Educação seria concedida a universitários de baixa renda e custeada pela União. Ele sugeriu que o benefício seja equivalente a 60% do salário mínimo, ou R$ 279. O valor ficaria bem acima do teto do Bolsa Família, de R$ 182, pago a famílias com cinco crianças na escola. Chagas disse que levará a proposta ao presidente Lula nas próximas semanas: - Não vamos popularizar a universidade no Brasil sem políticas desse tipo.Chagas quer que a bolsa seja concedida a alunos de universidades públicas e privadas. Hoje, a política de assistência estudantil é estabelecida e custeada por cada instituição de ensino, à exceção das bolsas do ProUni. Ele também defendeu que a União subsidie o passe livre de estudantes.

Com essas iniciativas Augusto Chagas nos mostra que o peleguismo também se transforma com o tempo. Os pelegos pós modernos continuam servis, porém, um pouco mais pragmáticos.

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Vanguarda Histérica


As justificativas do artista alemão Ottmar Hörl :"não compreendo todo o barulho sobre minha proposta estética... eu não pretendia ofender ninguém", me levaram supor que ele não "compreende" nem mesmo o mundo que vive. Diante de tamanha inconsistência intelectual me senti obrigado a retornar a discussão sobre as conseqüências desse tipo de pensamento na arte e em outras atividades intelectuais. Algo oculto nesse tipo de atitude está impregnado de argumentação irresponsável que vem a algum tempo neutralizando a abordagem critica sobre um ponto difuso das propostas estéticas contemporâneas. Esse tipo de atitude vem permeando a proliferação de uma mentalidade complacente e acrítica. Afinal, num mundo inundado pelas mais idiotas banalidades por que dar importância a aparição na vitrine da Weigl Galeria(mostra em cartaz), na Alemanha de um bonequinho que reproduz o gesto de mão da saudação nazi de Adolf Hitler e seus seguidores? Por que se indignar com as propostas de Günter Von Hagens? Anatomista alemão que ficou famoso em seu país e ganhou as manchetes internacionais através das exposições sobre os “vários estágios da vida humana” que incluíam cena de sexo entre cadáveres alem de outros mais 200 corpos inanimados submetidos ao controvertido processo de "plastinação", nome de sua invenção“cientifica” dos anos 70. Porque se revoltar contra Guillermo Vargas Habacuc, que colheu um cão abandonado na rua, atou-o a uma corda curtíssima na parede de uma galeria de arte e ali o deixou morrer lentamente de fome e sede. Em 2009 a Bienal Centro-americana de Arte convidou Vargas Habacuc a repetir a ação. Os curadores da Bienal alegam que a grandeza da obra de Habacuc não pode se encolher frente às criticas das pessoas que nada sabem de arte contemporânea.

O que essas intenções estéticas tentam nos ensinar? Afinal, Hörl não queria ferir ou ofender ninguém ao reproduzir a saudação nazi. Ele afirma que em uma exposição em Ghent, na Bélgica, no final do ano passado, não houve nenhuma queixa. Ele argumenta que na ocasião: "Eles faziam parte de uma exposição contra a extrema direita”... "Ninguém teve um problema com eles". Cada um dos gnomos vem com a seguinte inscrição em sua base: "As pessoas podem ser ideologicamente enganadas, assim como foram pelos nazis alemães”, diz Hörl. O artista defende seu trabalho como uma forma de sátira - ele só queria divertir dando cotoveladas nos nazistas, retratando-os como gnomos. "Eu provavelmente teria sido morto pelos nazistas, se me atrevesse a mostrar os arianos a " super raça "como gnomos em 1942.”

Seu argumento tem algo de similar aos de Günter Von Hagens que também não pretendia desonrar os mortos. Ao contrario,ele apenas recorreu a seu invento cientifico fracassado o tornando experiência artística economicamente rentável. No fim das contas são apenas corpos sem vida, vazios de alma, de onde se extrai os líquidos dos tecidos corporais os substituindo por uma substância plástica especial tornando a matéria inerte que seria devorada pelos vermes em bem cultural com valor econômico ajustado indefinidamente. Lembra-me as palavras de Vargas Habacuc que se valeu do argumento de que o mal esta no intimo do espectador insultado, afinal: ”milhares de cães morrem nas ruas todos os dias. Por que se ofender ao ver um cão morrer de fome e sede numa galeria de arte? Pura hipocrisia!” diz ele.

Quantas contradições se escondem atras das manifestações ambíguas de caráter sensacionalista,tão comuns nos dias atuais? Por se tratar de uma imagem, as observações anexadas à base dos gnomos nazis, ainda que visem neutralizar a ambigüidade latente no processo de criação da própria imagem, é um adendo inútil que surge após a visão do proprio objeto.Portanto,tal breviário tenta eliminar a 'posteriori' qualquer duvida contida no precário, ou intencional, procedimento da concepção visual. A elaboração de um ícone capaz de gerar interpretações conflitantes com as intenções do próprio autor é um problema de criação não de interpretação. Artistas desatentos a esse contexto estão sujeitos a surpresas desagradáveis. A enorme complexidade da vida e dos signos contemporâneos exige muito mais esmero de um autor.Os preguiçosos, descuidados e oportunistas estão sujeitos a retornos indesejáveis.Esse parece o caso dos gnomos(seres mágicos carregados de conotações positivas no imaginario humano.Será que Hörl não sabe disso?) nazi de Hörl que desprezando a polifonia interpretativa, um fenômeno contemporâneo de grande importancia,deu com os burros n'agua.Fracassou na experiência visual e reincidiu no erro, ao formular textualmente o que não conseguiu passar para o publico em contato com as imagens.Suas justificativas tentam, em vão, limitar a leitura de sua própria criação. Tal ingenuidade seria mais adequada a um artista naif que, por prudência, se mantêm afastado de temas de grande complexidade filosófica ou sociológica.

Diante de tantas tolices, escrever alguma coisa mais sobre um ato oportunista pode ser uma atitude inútil, porém, não posso me calar diante de tanta manipulação sensacionalista. Já falei, em textos anteriores, sobre a frágil posição critica em tempos de relativismo cultural. Tal contaminação atingiu em cheio boa parte da produção estética contemporânea. Em tempos de liberalismos extremos atacar alguma coisa que ocorra numa instituição cultural ou no mercado de arte a titulo de manifestação artística, vem sendo entendido como uma forma de censura as múltiplas formas do saber, do conhecimento e da arte,uma espécie de reacionarismo. Tal conceito invadiu os corações e produziu uma névoa que deu origem ao surgimento de uma crença perversa que se apoderou das mentes que vêem na abolição dos critérios na arte da atualidade uma garantia de liberdade de expressão. A expansão dessa idéia invadiu a vida contemporânea de tal modo que se tornou argumento das posições endossadas como politicamente corretas. A expansão do relativismo cultural consagrou o culto à banalidade. Esse culto tornou-se o meio mais eficaz de indução do espectador aos seus mais mórbidos desejos. A espetacularização da morte e a apropriação burra dos gadgets da cultura pop tornaram esses brinquedos estetizados uma fonte inesgotável de $ para o mercado de arte. Suas conseqüências se mostram agora bastante visíveis nos estragos consideráveis que emburrecem grande parte da mentalidade artística contemporânea.